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Breve história menonita.
Esta é uma verdadeira saga de fiéis em nome de Jesus Cristo e de Deus. Inicia-se com a Reforma da Igreja Católica, o surgimento do protestantismo, a conversão de Menno Simons, tudo isso no final dos anos 1400 e início dos anos 1500. O cenário é a Holanda, os países do que se chamava o Reino da Prússia e a Rússia. Seguem-se histórias heróicas de muita luta por ideais cristãos, sofrimentos, mortes brutais, perseguições. O que desejavam os anabatistas? Queriam a separação de igreja e estado e o direito de seguir livremente as leis expressas na Bíblia, sobretudo os preceitos do Novo Testamento.

Em séculos de fuga, saíram da Holanda para a Alemanha (na Prússia), onde viveram por quase 200 anos; depois, a convite do governo Russo, ocuparam por aproximadamente 150 anos as planícies do Alto Volga. Por onde passaram, tornaram-se prósperos agricultores, proprietários das melhores fazendas do mundo de então, e estabeleceram escolas, faculdades e hospitais considerados os mais importantes daqueles tempos. Perseguidos por sua religião, por interesses políticos e comerciais, ou vítimas das muitas guerras na Europa, chegam ao início do século XX sob a perseguição da Revolução Comunista Russa que os considerou inimigos declarados.

 

Desde então, centenas de milhares de menonitas espalharam-se pelo mundo. Muitos desembarcaram no Canadá e Estados Unidos, pelos anos 1920, e outros tantos chegaram à América Latina – significativamente ao Brasil e Paraguai. Uma grande movimentação de contingentes que alcançou até os anos 1950, 1960. No dia 16 de janeiro de 1930, o navio Monte Olivia partiu de Hamburgo, na Alemanha, para levar ao Brasil os primeiros imigrantes menonitas. Depois de quase dois séculos de trabalho e progresso nas planícies geladas do Alto Volga, na Rússia, com a Revolução Bolchevique (1917) os menonitas passaram a ser perseguidos; suas fazendas, prósperas e exemplares para o mundo de então, foram confiscadas; muitos foram mortos ou condenados a trabalhos forçados na Sibéria. A solução foi deixar o país, cruzando o Portão Vermelho russo e, a partir da Alemanha, ganhar o mundo à procura de uma nova pátria.

Deixaram para trás uma vida inteira de lutas, parentes e amigos, muitos dos quais jamais voltariam a encontrar. Poderiam ter escolhido o Canadá como destino, mas Heinrich Martins, homem de confiança das organizações internacionais que promoviam a imigração e líder do grupo, na última hora optou pelo Brasil. O Monte Olivia chegou à Ilha das Flores, no Rio de Janeiro, no dia 3 de fevereiro de 1930, depois de 19 dias de viagem, trazendo as primeiras 30 famílias menonitas – 179 pessoas. Outros dois navios, Baden-Baden e Madrid-Bremen, trouxeram mais colonos, fugitivos da região do Volga. Até 1932 chegariam ao Brasil 1.245 imigrantes menonitas, com a ajuda do governo alemão, da Cruz Vermelha Germânica e de menonitas holandeses. Do Rio de Janeiro para o porto de São Francisco do Sul, Santa Catarina, onde chegaram no dia 5 de fevereiro de 1930. De lá, para Itajaí – 9 horas de viagem no navio costeiro Max.

 

E de Itajaí até Blumenau, 8 horas de viagem num pequeno vapor fluvial. De Blumenau, 3 horas até a Estação Hansa, em Ibirama, que era chamada Hammônia. E da Estação, mais 60km a pé, em lombo de cavalo ou em carroças, entre montanhas, até a área de propriedade da Companhia Hanseática de Hamburgo, a oeste de Ibirama: o Vale do Rio Krauel, onde chegaram no dia 13 de fevereiro de 1930. O Krauel é um afluente do Rio Hercílio, que por sua vez é um braço do Rio Itajaí e que recebera este nome dos agrimensores da Companhia Hanseática, à época das primeiras imigrações de alemães ao país, anos antes, possivelmente numa referência ao embaixador alemão no Brasil. Tudo estava por fazer naquela terra desconhecida, muito diferente das planuras de trigo que plantavam no Volga. Por aqui eram as montanhas, muito calor, insetos, ameaças de ataques de índios remanescentes de antigas aldeias.



Foi com dificuldade que se habituaram ao feijão, arroz, mandioca e ao pão de milho em vez de trigo. Logo fundaram a Colônia Krauel, no Vale do Rio Krauel, com os núcleos Waldheim, Gnadental e Witmarsum, que era o centro de todo o estabelecimento; depois, com a chegada de mais menonitas, fundaram Auhagen na localidade que denominaram Stoltz Plateau. Os antigos colonizadores alemães chamavam de Nova África o núcleo colonial, porque muitos haviam lutado naquele continente antes de virem para o Brasil. Com a chegada dos menonitas e uma solicitação de Henrich Martins, mudou-se o nome do núcleo para Witmarsum, referência à terra natal de Menno Simons. A comunidade pouco falava ou entendia o português, pouco tinham contato com brasileiros.

 

A maioria dos menonitas no Vale do Krauel era de agricultores, mas também vieram marceneiros, carpinteiros, alfaiates, sapateiros, enfermeiras e professores. A manutenção das famílias neste primeiro ano de imigração foi assegurada com a ajuda da Cruz Vermelha Germânica, no que se referia à agricultura; e da Holanda, por meio da Hollaendisch Doopsgezind Bureau, na construção de escolas, serrarias e de uma cooperativa. No prédio onde hoje funciona a prefeitura de Witmarsum, funcionou o hospital, de 1936 a 1952. E logo que a produção de leite passou a fazer parte das atividades da colônia, a comunidade instalou no mesmo terreno da cooperativa uma desnatadeira e uma venda – o velho casarão ainda está em pé, recentemente foi restaurado e abriga uma casa de cultura da cidade. A educação para as crianças, no princípio, era ministrada na casa dos membros da comunidade, assim como os cultos e os ensaios do coral, até que em 26 de abril de 1931 fosse inaugurada a primeira escola de Witmarsum, no Ribeirão do Cambará. Aos domingos a escola dava lugar aos cultos. A primeira igreja foi construída em Waldheim, em 1932. Em 1934, a maior parte dos colonos menonitas de Auhagen e muitos das outras comunidades partiram para Curitiba, no Paraná, em busca de novas terras.

Os campos abertos de Curitiba permitiam o uso do arado e a criação de gado. Estabelecidos inicialmente nos bairros Pilarzinho, Bacacheri e Vila Guaíra, em pequenas propriedades, com o dinheiro da venda de suas próprias terras adquiriram 100 alqueires na região dos bairros Boqueirão e Xaxim, na região Sul da cidade, formando um núcleo de pequenas chácaras. A atividade leiteira deste núcleo menonita em breve estaria suprindo mais da metade do leite consumido pela população da capital paranaense, e que mais tarde seria comercializado pela Cooperativa do Boqueirão, fundada pelo núcleo em 1945. Mais uma vez, religião, trabalho e educação faziam brotar o progresso na comunidade, ainda que recomeçando sua vida incansavelmente.

 

Hoje a comunidade menonita de Curitiba mantém instituições de grande importância para a cidade. Entre elas:

•   O Núcleo Terapêutico Menno Simons atende aproximadamente 1.200 pessoas por mês.

•   A Casa José atende adolescentes carentes todos os dias e abriga rapazes, em regime de república, na Fazenda Rio Grande, cidade vizinha a Curitiba.

•   A AMAS, Associação Menonita de Assistência Social, atende mais de 900 crianças de Curitiba e cidades vizinhas - Lapa, Porto Amazonas e Palmeira -, em seis centros de educação infantil e um centro de apoio a pequenos agricultores, com alimentação, educação, lazer e principalmente para formar nas crianças um caráter cristão - presta apoio sociofamiliar e socioeducativo em meio aberto, é uma instituição filantrópica criada para promover o bem-estar social e espiritual nas comunidades e famílias carentes.

•   O Lar Betesda, uma clínica de repouso, apoio e recuperação para idosos, atua desde 1979.

•   A comunidade menonita mantém a Chácara Betel, o Esporte Clube Olímpico e o Danúbio, locais para esporte e lazer.

•   A Faculdade Fidelis, que surgiu da parceria entre os mantenedores do antigo ISBIM, Instituto e Seminário Bíblico Irmãos Menonitas, diversas denominações evangélicas - COBIM (Irmãos Menonitas), AIMB e AEM (Menonitas) e CIELB (Evangélica Livre) - e a Fundação Educacional Menonita, para o credenciamento do Curso de Bacharel em Teologia pelo MEC.

E a Fundação Educacional Menonita é a mantenedora do Colégio Erasto Gaertner, no bairro Boqueirão – a pequena escola destinada aos primeiros imigrantes do Krauel, que iniciou suas atividades em 1936 com 18 alunos, hoje é uma das mais respeitadas instituições de ensino de Curitiba, com cerca de 1.000 alunos e uma infraestrutura exemplar numa área de 20.000m2. No Krauel floresceu a fé que se espalha pelo Brasil e repousam nossos antepassados. Hoje são mais de 10.000 menonitas pelo país. Trabalho, religião e educação fazem brotar o progresso nas comunidades menonitas, seguindo o mesmo preceito que vem desde os tempos da Holanda, onde nasceu Menno Simons e onde começou nossa caminhada pelo mundo, plantando e colhendo a fé cristã: “Porque ninguém pode lançar outro fundamento, além do que já está posto, o qual é Jesus Cristo”.

 
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